A proposta deu tão certo que hoje, segundo a Embrapa, desde a extração até a industrialização, o açaí é responsável pela criação de 25 mil empregos diretos e, anualmente, gera mais de R$ 40 milhões em receitas. O Pará, conforme apontam os dados do IBGE, se tornou responsável por 90% da produção nacional, numa estimativa de mais de 1,7 milhão de toneladas em 2023 – desse total, 26,4% foram produzidos pela cidade de Igarapé-Miri. Aquela mesma, onde tudo começou.

Apesar da aparência simpática, o fruto do açaí não pode ser mastigado em sua forma natural: é preciso que ele se transforme em pasta ou em líquido. E uma das principais vantagens dessa forma é que ela pode servir de base para prato principal, suco e até sobremesa. Na região Norte do País, a polpa de açaí é comumente misturada à farinha de mandioca. Esse prato, que parece simples, é, na verdade, importantíssimo para a alimentação local: altamente nutritivo, ele fornece carboidratos, vitaminas, gorduras e proteínas a quem o consome. Pensando que o cultivo do fruto ganhou força em um momento delicado da economia e da agricultura, faz sentido que ele tenha se fixado na cultura alimentar nessa forma.

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Mas foi só ao se tornar mais doce e receber a adição de outros ingredientes, como o guaraná, que ele começou a ultrapassar fronteiras. Além da versatilidade, o que chama atenção no fruto é a sua reputação como um alimento saudável, que auxilia, inclusive, no ganho de energia ao ser consumido. Sendo importado principalmente pelos Estados Unidos, que é o responsável por 80% das compras da produção paraense, a exportação de purê de açaí em 2023, de acordo com a publicação da Agência Gov, chegou a 79 toneladas, um aumento de 41% em relação ao ano anterior.

Como manter a cadeia de produção sustentável?

Porém, a difusão do fruto, conhecido como ouro preto da Amazônia, traz um desafio para a sua cadeia de produção: como mantê-la sustentável? A palmeira que produz o açaí precisa de muita água para se desenvolver – por isso é muito abundante nas regiões amazônicas, em margens de rios. Sua grande vantagem é o fato de não precisar ser cortada para a colheita. Ou seja, uma fonte de renda e alimento que também ajuda na manutenção da floresta.

Mas a expansão traz à tona o risco de monocultura. Com isso, surge a necessidade de que sejam adotadas práticas e políticas que incentivem a diversificação agrícola e a preservação ambiental, além da promoção de sistemas agrícolas sustentáveis, que integrem o cultivo do açaí com outras espécies vegetais nativas. Também é fundamental oferecer suporte ao produtor, investindo em capacitação técnica a fim de aprimorar suas práticas de manejo e garantir uma produção mais eficiente e responsável.

Para uma cadeia de produção de açaí mais sustentável, é essencial adotar medidas que promovam a eficiência no uso de recursos e a estabilidade operacional. Isso pode ser alcançado fornecendo equipamentos com tecnologias que economizam água e energia, reduzindo as perdas de processo e o desperdício de matéria-prima. Além disso, é fundamental garantir uma produção estável e constante. Com tais práticas implementadas é possível cuidar da cadeia de ponta a ponta, protegendo o fruto, os produtores e o planeta.

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O açaí tem muita história e o seu futuro já está sendo traçado. Em fevereiro de 2024, a Índia autorizou a entrada de açaí em pó no país. Nesse formato, a comercialização do fruto, além de ser menos volumosa, é mais barata e garante uma maior vida útil ao produto. Sendo um país com um mercado consumidor gigantesco, as compras indianas, com certeza, impulsionarão ainda mais seus números de exportação; mas mais do que isso, será o ponto de partida para que outras nações permitam a mesma possibilidade, firmando o açaí como um alimento – e um sabor – de destaque na cena global.

Por Ana Paula Forti, Diretora de Processamento da Tetra Pak Brasil.

Fonte: Food Connection.