Previsões financeiras e climáticas apontam para cenário otimista para trigo em 2025.
Plantar trigo na safra de inverno de 2025, para muitos produtores, tem gerado alguns receios. Mas, mesmo com um contexto recente desafiador, devido a problemas climáticos e de comercialização nas últimas duas safras, a propriedade precisa ser vista como um sistema produtivo.
E dentro desse sistema, o trigo segue se destacando como a principal cultura de inverno no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e partes do Paraná, e uma das principais em outras regiões do país.
“Propriedades que utilizam somente o verão não se sustentarão mais a longo prazo, por causa da instabilidade climática e do incremento no custo de produção”, afirma o gerente de desenvolvimento de trigo da GDM Seeds no Brasil, Giovani Facco.
Porém, ao contrário dos dois últimos anos, a safra de trigo de 2025 já dá sinais mais positivos tanto de clima quanto de mercado.
Para o analista de mercado de trigo da Safras & Mercado, Élcio Bento, as perspectivas de preços para a próxima safra do cereal são positivas.
“Os preços subiram cerca de 20% em relação ao mesmo período do ano passado. Pensando em RS, já temos negócios de safra nova sendo fechados a R$ 1.400/tonelada no porto, o que daria uns R$ 1.250/t no interior. Ano passado, no mesmo período, as indicações eram de preços em torno de R$ 1.000/t a R$ 1.100/t”, informa.
Élcio Bento, analista de mercado de trigo da Safras & Mercado.
Fatores por trás do aumento de preços
Segundo Bento, a formação de preços é feita por três motivos: o abastecimento interno, o preço internacional e o câmbio.
– Quando olhamos para os dois principais estados produtores do Brasil, RS e PR, que respondem por cerca de 90% da produção brasileira, eles estão praticamente sem trigo da safra velha para vender. No PR, a próxima safra só vai começar a entrar de forma mais intensa em setembro, então não tem porque os preços do trigo caírem. No RS, que tem um pouco mais de trigo atualmente, também há uma tendência de falta em algum momento e de que os preços, que já estão altos, subam. Se tem pouco trigo no Brasil, os preços são formados pela paridade de importação, ou seja, vem de fora. E o nosso principal fornecedor, que é a Argentina, está com cotações bem elevadas em relação ao ano passado. Somado a isso, temos um contexto de volatilidade nos preços internacionais e no câmbio, que apresenta uma dificuldade de redução.
O especialista ainda cita que sua percepção de mercado aponta para uma perspectiva atraente ao produtor. “O cenário de preços é positivo. Se o câmbio se mantiver alto e o clima ajudar, teremos um bom ano para a comercialização”, declara.
O que esperar do clima para 2025?
De acordo com o agrometeorologista e pesquisador da Embrapa Trigo, Gilberto Cunha, as principais instituições climáticas internacionais indicam que, ao longo de 2025, o clima deverá ter uma condição de neutralidade, não sendo influenciado nem por El Niño, nem por La Niña. Probabilisticamente, o cenário mais improvável é o de El Niño, que é justamente a condição que mais afeta negativamente a cultura do trigo no Sul do Brasil.
“Eu entendo que a perspectiva do clima para a safra de trigo de 2025, especialmente no Sul do país, não se mostra como adversa ou ruim”, afirma Cunha.
Dados coletados de 2001 a 2022, em pesquisa realizada pela Rede Técnica Cooperativa (RTC) no campo experimental da Cotripal, em Condor (RS), ajudam a entender o cenário que se desenha para a safra de 2025. A pesquisa, que compilou a dinâmica do potencial produtivo de diferentes cultivares de trigo em várias épocas de semeadura, mostra a influência dos fenômenos climáticos ao longo de 22 safras no RS. É o que aponta o doutor em ciência do solo e pesquisador da Cooperativa Central Gaúcha (CCGL), Tiago Hörbe.
– Anos com influência de La Niña mostraram rendimento médio de 62 sacos por hectare, com picos de 38 a 92 sacos. Quando olhamos para anos com influência de El Niño, a média foi de 45 sc/ha, uma redução de 39% no potencial produtivo. Já anos de neutralidade nos mostraram uma média de 52 sc/ha. Assim, nesses anos, nós temos um padrão de clima dentro da média, que é bom para o inverno. Temos altos tetos produtivos, bem superiores a anos de El Niño. Inferiores aos anos de La Niña, é claro, mas temos bons patamares produtivos.
Conforme Hörbe, um ponto de atenção importante dentro de anos de neutralidade climática é a possibilidade da ocorrência de geadas no mês de agosto ou início de setembro, a depender da região semeada.
“Temos que ter um cuidado para não apostar todas as fichas e sermos penalizados em caso de eventos de geada. Esse trabalho de 22 anos nos mostra isso. Tivemos dois anos com influência de neutralidade em 2006 e 2008. Em 2006, tivemos ocorrência de geada, então a semeadura do final de maio, início de junho, prejudicou a produção. Já em 2008, não houve geada e as maiores produções foram as do final de maio e início de junho, reduzindo à medida que a semeadura foi atrasada para julho”, comenta.
Com esses cuidados sendo tomados, Hörbe afirma que é possível alcançar tetos produtivos na região de 80 sc/ha em anos de neutralidade. “O ano de neutralidade é bastante técnico. O produtor tem que fazer gestão de riscos em todos os sentidos”, cita.
Gestão de riscos climáticos
De acordo com Cunha, a variabilidade climática se faz presente na agricultura em todos os anos, em maior ou menor escala. E para se lidar com os riscos que o clima pode trazer – ainda mais em culturas de alta sensibilidade às variações extremas, como o trigo –, é fundamental realizar uma gestão integrada de riscos climáticos.
Para o pesquisador, a primeira prática a ser adotada é a atenção às épocas corretas de semeadura das cultivares, conforme os períodos indicados pelo Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC).
Já a segunda prática é a redução dos impactos das possíveis adversidades climáticas, que pode ser feito através de algumas ações.
“Uma ação fundamental para atenuar os riscos é realizar a rotação de culturas. O clima está relacionado ao aparecimento de doenças, mas a rotação de culturas acaba reduzindo o impacto das condições climáticas no desenvolvimento de algumas doenças, como é o caso de podridões radiculares e manchas foliares”, menciona.
Outra prática que visa reduzir riscos é o escalonamento de épocas de semeadura. “Se existe um calendário de semeadura que pode variar de 30 a 50 dias em cada local, não há porque eu plantar toda a minha área de uma vez. Seria fundamental, além da rotação de culturas, diversificar as épocas de semeadura e, sempre que possível, diversificar cultivares que tenham ciclos e resistências genéticas diferentes”, pontua.
Ainda dentro da segunda prática, Cunha aborda a importância de reduzir impactos no momento da colheita.
– É muito comum andarmos na estrada ali por novembro, outubro, e vermos lavouras de trigo que estão prontas para colher, mas que acabam sendo deixadas para depois, em virtude do envolvimento dos produtores com a semeadura da soja. Então, uma das recomendações é colher na hora certa. Trigo pronto no campo deve ser colhido, porque chuvas na fase final do ciclo acabam afetando negativamente a produtividade e a qualidade industrial dos grãos, especialmente reduzindo o peso do hectolitro (PH) e acarretando em problemas de germinação na espiga.
A terceira prática de gestão de risco é uma ferramenta conhecida por todos os agricultores. “A transferência de risco, que se faz através da seguridade rural, seja pública, no caso do Proagro, ou privada, pelo seguro agrícola, é fundamental em todos os cultivos”, ressalta.
Perspectivas otimistas
Segundo Tiago Hörbe, é recomendado que o produtor tenha um cuidado na escolha das genéticas de trigo a serem cultivadas nesta safra, pensando na possibilidade de geadas mais tardias. “É importante cuidar os dias entre a semeadura e o espigamento do trigo, para que esse espigamento não se exponha tanto ao risco de ocorrência de geadas dentro do mês de agosto. Mas, estou olhando para o inverno com otimismo, tem tudo para ser um ano favorável”, aponta.
Fonte: Biotrigo.

