Produzir rosas no Brasil é, como define o produtor Tiago Shima, “quase um milagre”. Em um país tropical, com verões longos e imprevisíveis, cultivar uma flor que exige frio, altitude e estabilidade térmica é um desafio que vai muito além da técnica. É um exercício diário de sensibilidade, persistência e aprendizado constante.
Da tecnologia ao campo: o reencontro com as raízes
Nascido em Bragança Paulista (SP), Tiago cresceu próximo ao universo das flores — seu pai era gerente de produção em uma fazenda de rosas em Atibaia. Ainda assim, seu primeiro caminho foi a tecnologia. Formado em Sistemas pela FATEC, ele acreditava que a produção agrícola poderia ser conduzida puramente por dados. “Eu dizia para o meu pai que dava para produzir baseado só em ciência. Ele me respondia: ‘Tiago, tem que observar a planta’”, lembra.
A diferença de visão acabou moldando a essência da Bellarosa, sua empresa atual. Da curiosidade científica veio o rigor dos processos; do legado do pai, a percepção de que nenhuma planilha substitui o olhar humano sobre a planta.
Um recomeço marcado pela fé e pelo aprendizado
A história da Bellarosa começa oficialmente em 2011, em Antônio Carlos (MG), quando Tiago e o irmão decidiram produzir suas próprias rosas. O início foi difícil: faltava experiência empresarial, estrutura e conhecimento agronômico. Pouco tempo depois, em 2015, o pai de Tiago faleceu, e ele assumiu a gestão do negócio em meio à crise.
Foi nesse momento que entrou em contato com a Cooperflora, um divisor de águas. “Ali eu comecei a ter número, dados, planejamento. A Cooperflora me deu estrutura e visão de gestão.” A partir daí, o sítio cresceu, dobrou de tamanho e profissionalizou-se. Mas o caminho continuou desafiador — veio a pandemia, a necessidade de fechar temporariamente e, depois, o recomeço em Bragança Paulista, já com o nascimento da filha Lívia e o início da nova fase: a Bellarosa.
O cultivo: entre o milímetro e o milagre
Na Bellarosa, nada é simples. Cada haste colhida depende de observação, precisão e tato. “A rosa é uma planta que exige cuidado artesanal. O trabalhador precisa entender a planta, o ponto de corte, o momento certo. Se errar, compromete o próximo ciclo”, explica Tiago.
Uma estufa de seis hectares demanda cerca de 60 pessoas para funcionar plenamente. “A produção é tão manual que quase não dá para mecanizar. É trabalho humano, sensível, repetido todos os dias.”
E o ciclo é longo: entre o plantio e a primeira colheita podem se passar dois anos. No verão, as rosas completam um ciclo em até 45 dias; no inverno, o tempo dobra. As rosas spray, com múltiplos botões por haste, têm se mostrado mais adaptadas ao clima local e se tornaram uma aposta estratégica da Bellarosa.
Rosa spray: o novo olhar do mercado
Enquanto o mercado da rosa tradicional enfrenta oscilações de preço e alto custo de produção, a rosa spray surge como uma alternativa promissora. “Ela tem melhor rendimento por colaborador e vai bem em climas mais quentes, como o de Bragança. É o produto que mais cresce aqui.”
A equipe realiza podas seletivas — conhecidas como desbrota — para estimular a uniformidade das flores. O resultado é um visual delicado, múltiplo, que encanta floristas e consumidores e reforça a busca da Bellarosa por qualidade com autenticidade brasileira.
A flor como arte e ofício
Tiago costuma dizer que produzir rosa é uma mistura de ciência e arte. “Eu acordo, olho o clima, estudo dados, mas no fim o que guia é o olhar. Produzir rosa é como pintar um quadro: quanto mais você observa, mais camadas descobre.”
Com o tempo, o olhar se refina — e é nele que se revela a verdadeira arte da floricultura: o encontro entre técnica, experiência e sensibilidade compartilhada por quem vive o dia a dia do campo. A cada variação de temperatura, um novo desafio; a cada safra, uma nova leitura da planta.
O Brasil das rosas
Poucas regiões brasileiras oferecem condições ideais para o cultivo de rosas. Andradas, Barbacena, Atibaia, Bragança Paulista e partes da Bahia compõem esse mapa restrito. São áreas de altitude e clima ameno — ainda assim, no limite do que a rosa tolera. “Aqui, em Bragança, estamos a 800 metros. Já é quente demais. Por isso, pensar o futuro da rosa é também pensar em adaptação e inovação”, afirma Tiago.
O que floresce além da flor
Mais do que uma produção agrícola, a Bellarosa se tornou um laboratório vivo de resiliência. O sítio funciona com base em aprendizado contínuo: novos testes, novas variedades, novos manejos. A cada ciclo, Tiago e sua equipe buscam a combinação entre eficiência produtiva e expressão estética.
“Meu pai dizia que a planta fala, e hoje eu entendo o que ele queria dizer. Quando a gente entra na estufa, sente se está tudo bem. O cheiro muda, o olhar muda. Produzir rosa é viver em sintonia com o tempo da natureza.”
Entre montanhas e sentimentos
A história da Bellarosa é também um retrato do território das rosas brasileiras — um setor que segue florescendo, mesmo diante das intempéries. Do frio de Minas ao calor do interior paulista, produtores como Tiago reinventam a arte de cultivar beleza.
Cada haste colhida carrega muito mais que uma flor: carrega o tempo, a paciência e o amor de quem acredita que o belo é, sim, uma forma de resistência.
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