“Investir na bioeconomia permite combater a fome e a pobreza sem colocar em risco a riqueza natural da Amazônia.”

“Investir na bioeconomia permite combater a fome e a pobreza sem colocar em risco a riqueza natural da Amazônia.”

A Amazônia cobre quase 8,5 milhões de quilômetros quadrados, abriga 10% da biodiversidade terrestre do mundo e cerca de 20% de sua água doce, tornando-se um pilar fundamental na ação climática na agricultura, nos sistemas alimentares aquáticos e na sustentabilidade global. 

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) apoia os países da região amazônica no desenvolvimento de um modelo de bioeconomia que promova a transformação rural inclusiva, melhore a produtividade e o bem-estar e proteja o equilíbrio do ecossistema. Para saber mais sobre esses esforços e seu impacto na região, conversamos com Luiz Carlos Beduschi, Oficial Superior de Políticas para Desenvolvimento Territorial na América Latina e no Caribe. 

A Amazônia é um dos territórios mais afetados pela crise climática. Por que a FAO considera a bioeconomia uma oportunidade estratégica para avançar no desenvolvimento sustentável da região? 

A Amazônia é um território fundamental na luta contra a mudança climática, e a FAO está comprometida, preocupada e atuando ativamente para encontrar soluções que promovam o desenvolvimento econômico e melhorem a qualidade de vida das pessoas sem prejudicar o meio ambiente. 

Nesse contexto, vemos a bioeconomia emergindo como uma alternativa que nos permite combater a fome e a pobreza sem comprometer a riqueza natural da Amazônia. A oportunidade de negócios para a bioeconomia circular é estimada em US$ 7,7 trilhões até 2030. No entanto, a participação atual da região é de apenas 0,17% — um número que evidencia o enorme potencial de crescimento, desde que os investimentos estejam alinhados com rigorosas métricas de sustentabilidade ambiental e descarbonização. 

O que a FAO está fazendo para tornar realidade um modelo de bioeconomia que aproveite o potencial da Amazônia? 

Em 2024, a FAO, junto com a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), iniciou o desenvolvimento do Programa de Investimento em Bioeconomia da Amazônia envolvendo os oito países membros (Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela). Para isso, usamos informações geoespaciais, biofísicas e socioeconômicas fornecidas pela Iniciativa “De mãos dadas” para identificar estratégias de investimento adaptadas. Até agora, o programa tem se concentrado na criação de ecossistemas digitais que melhorem a rastreabilidade de produtos amazônicos selecionados e fortaleçam bens públicos, bem como na gestão sustentável da pesca por meio de acordos regulatórios regionais que melhorem a comercialização. 

Esse programa pretende mobilizar mais de US$ 70 milhões, com uma taxa interna de retorno (TIR) estimada em 17,6% com uma renda em valor presente neto estimada em US$ 23 milhões. Espera-se melhorar os meios de subsistência de 14,5 mil beneficiários diretos e 57 mil indiretos. 

O Programa de Investimento em Bioeconomia da Amazônia foi apresentado no Terceiro Diálogo Bioamazônico em Manaus e no Fórum Mundial de Investimentos em Roma. Qual foi o objetivo de levar a proposta a esses espaços? 

Ter espaços de cooperação e intercâmbio é essencial para incentivar os países e outras instituições a apoiar o desenvolvimento do Programa de Bioeconomia. Nesse sentido, ambos os eventos foram oportunidades-chave para discutir a proposta, aperfeiçoá-la e aprender com outras experiências da região. Em Manaus, por exemplo, dialogamos com representantes de instituições como Banco do Brasil, World Resources Institute e Fundo Vale. Essas entidades promovem modelos de cooperação que combinam expertise técnica, financiamento e desenvolvimento territorial inclusivo para fortalecer as bases do Programa de Investimento em Bioeconomia da Amazônia no âmbito da Iniciativa “De Mãos Dadas”. 

No Fórum Mundial de Investimentos, apresentamos uma versão mais robusta do programa a representantes do setor privado, bancos multilaterais, governos e instituições comprometidas com a transformação dos sistemas agroalimentares, buscando recursos para tornar realidade os planos de investimento em pesca sustentável e ecossistemas digitais. 

Qual é o papel das comunidades nesse processo e como sua participação tem sido assegurada? 

As comunidades rurais e os povos amazônicos estão no centro desse processo. Não queremos que sejam apenas beneficiários passivos — eles são os guardiões desses territórios. Mais de 50 milhões de pessoas vivem na Amazônia, incluindo 400 comunidades indígenas. Portanto, as soluções que oferecemos devem considerar suas culturas e tradições, suas preocupações e suas oportunidades. 

Na construção do Programa de Investimento em Bioeconomia da Amazônia, conversamos com eles por meio dos Diálogos Amazônicos para ouvir suas perspectivas. Também visitamos suas comunidades, o que é essencial para compreender realmente as condições locais. Durante a Semana da Amazônia, por exemplo, os participantes visitaram a Escola Santa Luzia, na Ilha do Baixio, onde educação, apoio a melhores práticas de produção e solidariedade comunitária se unem para proteger a floresta e construir um futuro melhor. Essa atividade também destacou avanços políticos nos países amazônicos e no setor financeiro para viabilizar investimentos que impulsionem a transformação produtiva e sustentável na região. 

Quais são os próximos passos para consolidar o Programa de Investimento em Bioeconomia da Amazônia? 

Os próximos passos envolvem transformar compromissos em governança efetiva, investimentos e resultados locais em territórios específicos. A FAO reafirma que a ação climática global deve avançar em harmonia com o bioma amazônico, protegendo sua biodiversidade e criando sistemas agroalimentares mais eficientes, resilientes e sustentáveis. 

Primeiro, aprofundaremos a cooperação com a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) para fortalecer a coordenação regional, atrair novos parceiros dos setores público e privado e da cooperação internacional, e implementar as propostas de investimento acordadas pelos países. O objetivo é ampliar soluções nas quais os setores agrícola e pesqueiro contribuam para enfrentar a crise climática, gerar emprego e renda e garantir que ninguém fique para trás. Também ampliaremos a inclusão digital rural mediante o estabelecimento de 100 ecossistemas digitais, integrando infraestrutura, serviços e aplicações — como bancos digitais e comércio eletrônico — para que produtores de bens livres de desmatamento possam acessar mercados sustentáveis e aumentar sua produtividade com valor agregado. 

Segundo, a incorporação de tecnologia de rastreabilidade para determinados produtos florestais não madeireiros busca abrir novas oportunidades ao alinhar cadeias de valor locais às rigorosas exigências de importação da União Europeia. Espera-se que essa medida aumente a produtividade e a produção com valor agregado, criando fontes de emprego e renda. Esses investimentos beneficiarão diretamente 5 mil famílias produtoras de açaí e cacau na Amazônia brasileira e apoiarão indiretamente até 45 mil pessoas. 

Terceiro, avançaremos em investimentos produtivos estratégicos. Uma iniciativa fortalecerá a pesca amazônica de bagres migratórios, reduzindo custos logísticos por meio de melhorias no transporte e oferecendo assistência técnica para o manejo responsável. Com um investimento estimado em US$ 41 milhões, o projeto busca melhorar a viabilidade da pesca artesanal, aumentar a renda per capita de 9,5 mil famílias e beneficiar indiretamente outras 12 mil pessoas, ao mesmo tempo em que cria novas oportunidades de produção com valor agregado e sustentabilidade na cadeia produtiva. 

Fonte: https://www.fao.org

Impulso Eco Agro

Revista Eletrônica do Setor Eco Agro.

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